# O problema não está na comunicação. Está na não-comunicação.
Dizemos muitas vezes que “o problema foi a comunicação”.
É uma frase útil. Curta. Arrumadinha. Dá para usar numa reunião, num conflito de equipa, numa discussão em casa ou naquele projecto que correu mal e que ninguém quer assumir que foi mal pensado desde o início.
Mas, na maior parte das vezes, o problema não está na comunicação.
Está na não-comunicação.
Está na conversa que foi adiada porque “não era o momento certo”. No feedback que ficou por dar para evitar desconforto. Na expectativa que nunca foi dita, mas que passou a ser cobrada como se estivesse escrita em letras garrafais numa parede.
Não estava. E, mesmo que estivesse, alguém teria de a ler.
A não-comunicação acontece quando presumimos que o outro sabe. Que percebeu. Que devia ter percebido. Que conhece as nossas intenções, limites, prioridades e frustrações sem precisarmos de as explicar.
É uma espécie de telepatia emocional com péssima taxa de sucesso.
Numa equipa, isto vê-se quando alguém espera autonomia, mas nunca define o que significa autonomia naquele contexto. Depois, quando a pessoa toma uma decisão, surge a crítica: “Devias ter falado comigo antes.”
Em casa, acontece quando uma pessoa diz “está tudo bem”, esperando que a outra faça um interrogatório digno de uma investigação criminal até descobrir que, afinal, não está nada bem.
Nas relações profissionais, aparece quando se pede “mais proactividade”, mas se castiga qualquer iniciativa que saia milímetros do plano imaginado por quem lidera.
E depois culpamos a comunicação.
Não. A comunicação até pode ter existido. Houve mensagens, reuniões, chamadas, e-mails, áudios de três minutos enviados às 23h47 e documentos partilhados com nomes como “versão_final_agora_sim_3”.
O que faltou foi clareza.
E, muitas vezes, coragem.
Comunicar não é falar muito. Há pessoas que conseguem ocupar vinte minutos de uma reunião sem dizer uma única coisa que ajude alguém a tomar uma decisão. Um talento, convenhamos, mas pouco útil.
Comunicar também não é despejar informação sobre os outros e chamar-lhe transparência.
Comunicar é tornar claro aquilo que importa: o que se espera, o que se decide, o que preocupa, o que mudou, o que não está a funcionar e o que cada pessoa precisa de saber para agir melhor.
Isso implica uma coisa pouco glamorosa: dizer o que precisa de ser dito antes de se transformar num problema maior.
Porque a ausência de comunicação raramente cria vazio. Cria interpretações.
Quando não explicas uma decisão, alguém inventa uma razão. Quando não respondes, alguém lê desinteresse. Quando não defines prioridades, cada pessoa cria as suas. Quando não estabeleces limites, as pessoas descobrem-nos da pior forma: ultrapassando-os.
Não porque sejam más pessoas. Porque estão a trabalhar, a viver e a decidir com a informação que têm.
E a informação que não damos também comunica.
O silêncio comunica. A resposta vaga comunica. O “depois vemos” comunica. A reunião cancelada sem explicação comunica. A mudança de comportamento sem conversa comunica.
Nem sempre comunica aquilo que pretendíamos, claro. Mas comunica.
É por isso que a não-comunicação é tão perigosa. Não resolve o desconforto; apenas o adia. E, pelo caminho, deixa que cada pessoa construa a sua própria versão da história.
Normalmente, essa versão não nos favorece.
Há conversas difíceis que não precisam de ser dramáticas. Precisam apenas de ser honestas. Um “não concordo”, um “isto não está claro”, um “não consigo cumprir este prazo”, um “preciso de perceber o que esperas de mim” podem evitar semanas de ruído, ressentimento e trabalho inútil.
Não é preciso transformar tudo numa sessão solene com música ambiente e uma apresentação de quarenta slides sobre alinhamento estratégico. Às vezes, basta falar antes.
Falar com respeito, sim. Mas falar.
Porque comunicar bem não é garantir que ninguém se sente desconfortável. É criar condições para que as pessoas compreendam a realidade, mesmo quando essa realidade não é especialmente confortável.
A alternativa é conhecida: evitamos uma conversa de cinco minutos e acabamos a gerir um problema de cinco meses.
Uma excelente estratégia, se o objectivo for complicar o que já era suficientemente simples.
Antes de dizeres que existe um problema de comunicação, vale a pena fazer uma pergunta mais incómoda: o que é que ainda não foi dito?
Talvez seja aí que começa a resolução.
