Uma câmara não revira os olhos.

Não acha a tua voz estranha.

Não comenta a tua roupa.

Não pensa que estás a tentar parecer alguém que não és.

É vidro, sensores, eletrónica e uma capacidade impressionante para gravar exatamente o momento em que te esqueceste de como se comporta uma pessoa normal.

Mesmo assim, ligamos uma câmara e começa uma reunião inteira dentro da nossa cabeça.

“O que vão pensar?”

“Estou ridículo?”

“E se isto não fica bem?”

“E se fica bem demais e parece que estou armado em qualquer coisa?”

Conheço este processo porque passei por ele.

Durante anos estive atrás da câmara. Fotografava pessoas, gravava pessoas, observava pessoas. Quando chegou a minha vez de virar a lente para mim, parecia que alguém me tinha desligado metade do corpo.

Falava baixo. Quase não mexia as mãos. A cara entrava num modo de segurança desconhecido da medicina.

Demorei algum tempo a perceber uma coisa bastante óbvia: a câmara não era o problema.

O público imaginário era.

Nós não estamos apenas a falar para uma lente. Estamos a antecipar julgamentos, comentários, comparações e a versão de nós próprios que imaginamos que vai aparecer no ecrã.

Por isso, treinar comunicação em vídeo não é aprender meia dúzia de gestos ou decorar onde colocar as mãos.

É conseguir estar suficientemente presente para deixar de representar “uma pessoa a fazer um vídeo”.

Quando isso acontece, a câmara deixa de ser um espelho onde procuramos defeitos e volta a ser aquilo que sempre foi: um meio para chegar a alguém.