Há um momento curioso em muitas discussões.
Começamos por querer resolver um problema.
Depois, algures pelo caminho, deixamos de querer resolver seja o que for e passamos a querer ganhar.
É uma mudança discreta.
A voz fica um pouco mais afiada. A escuta transforma-se numa pausa técnica enquanto preparamos a próxima resposta. Começamos a recuperar episódios antigos que estavam arquivados desde 2021 e que, por coincidência, provam que sempre tivemos razão.
Nesta fase, o conflito já não é sobre o assunto inicial.
É sobre identidade.
Se eu admitir que tens razão numa parte, parece-me que estou a perder. Se reconhecer que exagerei, receio ficar numa posição mais fraca. Então continuo.
E tu continuas.
Duas pessoas inteligentes conseguem passar uma quantidade impressionante de tempo a defender posições que já nem sabem muito bem porque adotaram.
Quando percebo que uma conversa entrou aí, há uma pergunta que ajuda:
O que quero proteger neste momento: a solução ou a minha posição?
Não significa que tenhamos de ceder.
Há conflitos em que precisamos de manter um limite. Há decisões em que duas pessoas simplesmente não vão concordar. Resolver um conflito não significa fabricar consenso onde ele não existe.
Significa perceber o que realmente está em causa e escolher o que fazemos com isso.
Podemos sair de uma conversa sem concordar e, ainda assim, perceber melhor o outro.
Também podemos ganhar todos os argumentos e deixar a relação num estado em que ninguém quer voltar a conversar.
Convém decidir qual dos troféus queremos levar para casa.



